A quarta pedra caiu da falésia. Fez um som exactamente igual aos três anteriores, mas foi o que melhor ficou gravado na mente de um ser. Nem de um ser-vivo, nem um ser-não-vivo, simplesmente um ser que vagueava pelo vazio à procura do silêncio que tanto o refrescava. Refrescava-o de dor e apatia. Sentimentos nauseabundos que lhe davam para tudo menos para evitar que as pedras continuassem a cair. As impurezas que lhe corriam nas veias acumulavam-se no coração. O ser estava perturbado. Por vezes queria viver, mas não estava morto. Porém, também existiam momentos em que queria morrer, mas também não estava vivo. Os movimentos de uma ‘coisa’ que nem ele sabia o que era provocavam nele um estado de coruscação. A cortesia das nuvens em não aparecer faziam com que a Terra ficasse plana e seca. Impossível de compreender. A leveza da corvina, no mar pesava-lhe na consciência. Mas, porquê? Ele não sabia. E por muito que se esforçasse, sabia que a Terra estaria debaixo dos seus pés, e que lhe parecia impossível como é que toda a gente, ou ninguém, admitia isso. Aquele algo sabia que quanto mais pequeno fosse o ser vivo, maior seria a realidade do mundo. Há medida que um ser humano vai crescendo, a sua cabeça afasta-se da realidade. Mas… o que seria a vida?... Algum dia, disseram-lhe que quando o coração bate é sinal de que estamos vivos. O seu coração batia. Se fechasse os olhos ouvia-o até. As vozes que ouvia repetidamente… não as queria esquecer. Apenas não o intimidava. Só que o mar zangava-se. Revoltava-se cada vez que a criatura respirava. Tentava perguntar ao mar qual o motivo, mas o respeito pela grandiosidade e beleza do oceano faziam com que ficasse sem palavras. Imobilizava-se como um barco à vela, sem vento algum, perdido num desconhecido, por vezes fatal. Por vezes queria ter um nome. Mas… porquê? Afinal o que é viver? As vozes bem lhe diziam, só que, vezes sem conta, essas mesmas vozes chegavam de tal forma distorcidas… que se tornavam indecifráveis. As forças que o apaziguavam no escuro eram transformadas em algo desconhecido que, por sua vez eram transformadas em nada, vazio. O único som que captável pela sua natureza foi um gemido apocalíptico. Apetrechado com o que não era preciso, ele olhou em redor. Deitou-se no chão. A sua face na Terra, em contacto com os restos das folhas das árvores que jaziam naquele bocado de solo. Foi exactamente ali que ficou até conseguir que toda a gente se esquecesse dele, esperando que alguém o conseguisse levantar da situação na qual, inexplicavelmente, se deixou sepultar.
12 de Novembro de 1999